. . . CONTINUAÇÃO
Atingido o local do suplício, confiou-se automaticamente aos soldados que o desnudaram, e, como se estivesse hipnotizado pela idéia do reencontro, sofregamente aguardado, quase nada percebeu dos martelos, rudemente manobrados, que lhe apresavam pés e mãos ao lenho que se lhe erguia de improviso…
Em derredor, escutava os protestos velados das centenas de espectadores da lamentável exibição, de mistura com as preces dos companheiros agoniados…
Detido, porém, na ânsia do repouso, Pedro não via que o tempo se escoava, sem que lhe desfechassem qualquer golpe… Aqui e além, grupos em oração e lágrimas salientavam-se de mãos postas; contudo, a morte tardava…
Aniceto, entretanto, não o perdia de vista, e, reparando que o crepúsculo baixava, atirou-lhe pontiagudo calhau à cabeça e gritou:
- Morre, bruxo!
O apóstolo observou que o sangue esguichava, mas, sem qualquer reação, rendeu-se ao invencível torpor, qual se fosse repentinamente anestesiado por brando sono. Semelhante impressão, contudo, perdurou por momentos.
O ancião, após desalgemar-se do corpo, identificou-se espiritualmente, livre e eufórico, ao pé dos próprios despojos, e, alheio à algazarra em torno, contemplou o firmamento, onde os astros se inflamavam, como se dedos invisíveis acendessem lumes deslumbrantes para uma festa no céu…
Espantado, observou que um homem descia do alto, como que materializado pela fulguração das estrelas, e, decorridos alguns instantes de assombro, viu Jesus a dois passos, a endereçar-lhe o inolvidável sorriso.
- Mestre! - exclamou, inclinando-se para beijar o chão que ele pisava.
O Messias redivivo tomou-os nos braços e partiu, conchegando-o ao coração, qual se transportasse frágil criança.
Por várias semanas restaurou-se Pedro na estância de luz que o Cristo lhe reservara.
Junto dele, visitou paragens de inexprimível beleza, recolheu lições preciosas, presenciou espetáculos soberbos da grandeza cósmica e abraçou afeições inesquecíveis…
Quando mais integrado se reconhecia no Plano Superior, eis que o Celeste Companheiro lhe anuncia nova separação.
Que o discípulo descansasse quanto quisesse, elevando-se às excelsas regiões…
Ele, porém, devia ausentar-se…
- Senhor, aonde vais? - indagou o apóstolo, penosamente surpreendido.
E Jesus, indicando-lhe escuro recanto da vastidão, em que se adivinhava a residência planetária dos homens, informou sereno:
- Pedro, enquanto houver um gemido na Terra, não me será lícito repousar…
- Então, Senhor, eu também…
E, como outrora, demandaram juntos, atravessaram Roma, parando, por fim, em espaçoso cemitério da Via Ápia, mergulhado na sombra noturna…
A multidão cantava, glorificando o Senhor…
Não obstante o Natal estivesse na lembrança de poucos, rememorava-se, ali, diante da imensidão constelada, a melodia dos mensageiros angélicos.
Simão, fremindo de emotividade, começou a chorar de alegria.
Anelava ser bom, aspirava a ser irmão da Humanidade, queria auxiliar a construção do Reino de Deus e homenagear a manjedoura de Belém, ofertando algo de si mesmo, em louvor do Evangelho…
Nesse ínterim, aproximou-se Jesus e disse-lhe ao ouvido:
- Pedro, alguém te chama…
O apóstolo voltou-se e, admirado, enxergou na pequena comunidade um homem triste, carregando nos braços um pequenino agonizante…
Era Aniceto, a rogar-lhe, mentalmente, se lhe compadecesse do filhinho que a febre devorava.
Qual se lhe registrasse a presença, expunha-lhe os remorsos que amargava e pedia-lhe perdão…
O antigo pescador não hesitou.
Depois de oscular-lhe a fronte suarenta, afagou a criança atribulada, impondo-lhe as mãos, e, ali mesmo, magneticamente tocado por forças renovadoras e intangíveis, o menino despertou, lúcido e refeito, enlaçando-se ao pai, à feição da ave assustada que torna à segurança do ninho.
Aniceto, no íntimo, compreendeu o socorro e a bênção que recebia e, renovado, começou a cantar em lágrimas de júbilo: "Glória a Deus nas alturas, paz na Terra e boa vontade para com os homens!…"
Para o rude legionário de César começava nova vida e para Simão Pedro o serviço continuou…
(Pelo espírito Irmão X, psicografado por Francisco Cândido Xavier, publicado em Antologia Mediúnica do Natal)