30.8.06
DEUS E OS ESPÍRITAS
A primeira questão proposta aos Espíritos por Kardec em O Livro dos Espíritos é justamente aquela que, pela primeira vez segundo nosso conhecimento, apresenta Deus de uma forma ainda não cogitada pelo homem: O que é Deus e não quem é Deus.
E a resposta foi e é para nós ainda de difícil compreensão: Inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.
Diante dessa pergunta e dessa resposta, percebemos, em muitos casos ainda a contragosto, que Deus não nos é apresentado sob a imagem antropomórfica, do velho senhor onipotente, possuidor de qualidades admiráveis, como a bondade e a misericórdia, mas também de defeitos deploráveis, como o ódio e o desejo de vingança e a discriminação (povo eleito, meu filho dileto etc).
Com certeza, atingindo entendimento suficiente para avaliar essa antiga imagem sob a ótica da razão e do bom-senso, já não lhe podíamos imputar o atributo da perfeição absoluta… Chegava-se então a um impasse: ou aceitávamos não ser Deus a perfeição suprema ou simplesmente deixávamos de acreditar em tudo o que nos haviam impingido até há pouco tempo.
A doutrina espírita, alicerçada justamente na razão e na lógica, à luz do bom-senso, não poderia de forma alguma endossar tal apresentação ou não seria senão mais uma seita a servir de engodo à humanidade ávida de esclarecimento e compreensão.
Foi assim que Kardec, espírito lúcido e já preparado para conduzir, edificar e codificar a terceira revelação, teve o cuidado, logo de início, de derrubar o ídolo caprichoso de longas barbas brancas para, em seu lugar, estabelecer a verdadeira identidade do criador, esse foco primeiro de inteligência maior, de onde tudo emana, tudo fluindo e evoluindo em conformidade com leis perfeitamente harmônicas, inteligentes e equilibradas, como seu próprio criador.
A partir daí, já não havia necessidade de sua interferência pessoal para premiar ou punir este ou aquele, pois suas leis se aplicam e se sucedem de acordo com a necessidade evolutiva de cada criatura, em resposta ao procedimento de cada uma. Dessa harmonia natural e inevitável depreende-se a grandeza dessa inteligência, a eqüidade de sua lei de justiça, amor e caridade.
Só que a maioria de nós ainda não estamos preparados para compreender em profundidade esse tipo de perfeição, verdadeiramente absoluta. A maioria de nós necessitamos ainda, quando nos sentimos de alguma forma fragilizados, imaginar que a mão de alguém todo poderoso e magnânimo se estende para nós, nos sustenta, ampara e protege contra exatamente as consequências de nossos próprios atos… Precisamos ainda imaginar que ele lança sobre nós seu olhar complacente e nos carrega nos braços através do vale das sombras…
E então, parece que nós espíritas, vemo-nos diante da dificuldade em nos relacionar com esse Deus sem uma forma definida, identificável mediante os nossos parâmetros e conceitos; um Deus que deixa em nossas mãos, sob nossa responsabilidade e risco, a construção do caminho através do qual atingiremos a meta obrigatória, que é a perfeição relativa a que somos destinados desde a nossa criação; um Deus que não podemos comprar com promessas e oferendas; um Deus que não distribui indulgências e perdão ao sabor da nossa vontade e da nossa covardia ou do peso do nosso bolso…
Entretanto, mais adiante, na questão 625 do mesmo Livro dos Espíritos, Kardec pergunta qual seria o modelo de perfeição moral a que o homem pode aspirar; e a resposta é simples: Jesus. Logo a seguir, os comentários de Kardec explicam com clareza e objetividade que Jesus de Nazaré é certamente o melhor modelo de perfeiçao moral a que o homem pode aspirar na Terra, não o excluindo, portanto, da humanidade, não o transformando em Deus como até então estávamos acostumados a conhecê-lo.
Contudo, para nós, ainda tão aferrados aos nossos conceitos e preconceitos, essa declaração foi o suficiente para que nos agarrássemos a Jesus – afinal até há bem pouco tempo ele era para a maioria de nós um dos elementos da Santíssima Trindade (o Pai, o Filho e o Espírito Santo)… Ali estava a muleta de que precisávamos, as mãos socorristas que procurávamos para carregar o fardo das nossas responsabilidades e compromissos…
O vinde a mim, vós que estais aflitos e sobrecarregados e eu os aliviarei (Cap.VI de O Evangelho segundo o Espiritismo), ao invés de ser comprendido sob a nova luz do bom-senso mostrando-nos que ao adotar atitudes éticas e morais semelhantes às que Jesus pregou e vivenciou nos sentiríamos mais tranquilos e aliviados, foi mais uma vez interpretado como uma possibilidade de descarregar sobre ombros alheios o peso das consequências dos nossos atos impróprios.
Sabemos, naturalmente, até mesmo como a doutrina nos esclarece, que temos amigos espirituais mais adiantados de diversos níveis evolutivos à nossa frente sempre dispostos a nos ajudar, incentivar nossos bons propósitos e nossas boas intenções; porém nenhum deles, nem mesmo nosso irmão maior Jesus, poderá fazer a nossa parte – e são nossos amigos justamente por compreenderem que, ainda que incentivados, só progrediremos efetivamente mediante nossos próprios esforços. Por isso tudo, devemos a eles o nosso carinho e o nosso respeito, porém jamais adolatria e dependência.
Mas, escorados na resposta de ser Jesus nosso modelo, e diante da necessidade de apelarmos para gurus, avatares, anjos, santos, conselheiros espirituais, mentores etc, além do fato de não mais dispormos daquele Deus profético e majestoso, o que vem acontecendo é que ainda não conseguimos nos relacionar com esse novo Deus, não sabemos falar com esse Deus, não sabemos orar a esse Deus, não conseguimos nos comunicar com esse Deus (já um outro companheiro articulista abordou esse aspecto). Assim, dirigímo-nos quase sempre, não só de forma particular mas também na maioria das casas espíritas, ao fazerem as preces de abertura e encerramento dos trabalhos, a Jesus nosso Senhor, Divino Mestre, transformando esse querido irmão mais velho e mais evoluído, mais uma vez, em um ser especial, criando entre nós, possuidores de esclarecimentos tão transparentes como os da nossa doutrina, uma espécie de jesuísmo; criando no meio espírita uma idolatria e uma bajulação com toda certeza não apenas contrárias aos preceitos espiritistas mas também nada agradáveis a esse espírito de tão alto nível (Dizei que sou bom; bom é o Pai que está nos céus…).
Precisamos, portanto, ter muito cuidado com as nossas colocações, ainda que cheias de boas intenções e de carinho, a fim de não deturparmos, com a nossa ignorância, fraqueza e comodismo, ensinamentos tão claros e conscientes como os da nossa doutrina espírita (ver questão 627 de OLE).
Doris Madeira Gandres – RJ – julho 2005


criado por Sérgio de Souza
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